A vida de uma residente de pediatria

Nossa segunda crônica aqui! Espero que estejam gostando! Vou contar mais um pouquinho da minha trajetória nessa vida de medicina. Como é a vida de uma residente de pediatria.
Quando era residente do segundo ano de pediatria, dei um plantão que ficou marcado.
Chegávamos ao hospital às 7h da manhã.
O plantão começava às 16h30. Era quando os colegas de trabalho iam embora e vc ficava responsável pelo setor. Pra ajudar ficava também uma colega residente do primeiro ano.
O plantão começou e um bebê que estava com bronquiolite começou a piorar, íamos precisar ajudá-lo a respirar com aparelhos.
Nesse mesmo momento uma menina de 4 anos, que recebia quimioterapia pra tratar de uma leucemia, sofria reação alérgica grave e seu coração batia lentamente.

Um sentimento chamado impotência

Precisávamos monitorá-la e ficar atentos, pq a qualquer momento o quadro poderia piorar.
O telefone tocou e tínhamos mais dois pacientes precisando ser transferidos pro meu setor. Uma menina diabética com 11 anos e em descompensação grave (quando a doença descontrola e o açúcar sobe muito no sangue dando complicações). E uma menina de 8 anos que fazia o que chamamos de edema agudo de pulmão (quando os pulmãozinhos ficam “encharcados”). À medida que iam surgindo pacientes graves e havia ali uma única residente que seguia minhas orientações e me ajudava, a sensação de impotência foi me tomando.
O menino precisava rápido de um meio para respirar e não podíamos mantê-lo naquele setor por muito tempo sem o auxílio da aparelhagem da UTI (que estava sem vagas). Por um segundo parei, deixei meu corpo ceder e sentei no chão, pedi ajuda a Deus, sem Ele não sobreviveríamos àquele plantão. Mandei uma mensagem rápida a meu marido e meus pais, pra que orassem e pedissem a Deus pra estar do meu lado e ajudar aquelas crianças. A noite foi passando e uma corrida entre um quarto e outro começou. Conseguimos uma vaga na UTI, o menino foi transferido e recebeu o suporte necessário lá.
Ao longo da madrugada o coração da menina que tinha leucemia começou a bater mais compassado e a pequena que tinha diabetes começou a estabilizar.
Quando tudo acalmou, consegui perceber que o sol já estava todo lá fora, sentei na sala de prontuários e um colega me ofereceu um chocolate, pois não havia comido a noite toda. Faltavam 30 minutos pra chefe chegar e eu teria que saber a história inteira de um paciente que havia sido transferido, ler 50 páginas nesse tempo. Portanto, comecei o quanto antes, sabendo que a chance de conseguir não existia.

Mas ainda tinha mais…

Quando dei a primeira mordida no chocolate a enfermeira, entrou correndo na sala “Doutora, tem uma parada lá no PS!” Eu não era responsável por lá, mas bem naqueles 5 minutos, a residente tinha subido para outro andar pra escovar os dentes, então lá fui eu, com o coração na boca. Quando cheguei na sala de emergência o clima era pesado. O menino tinha 11 anos e já chegou inconsciente. Começamos a massagem cardíaca e iniciamos as medicações que deviam ser feitas. O chefe de plantão chegou e, de longe, orientava a enfermeira o quanto deveria dar de medicação. Continuei a massagem, a residente responsável já havia chegado e ajudava o paciente a respirar. Foram minutos longos, e, num certo ponto, o chefe declarou o que todos sabiam que deveria ser declarado, mas ninguém queria que fosse. “Infelizmente, vamos parar.” Não consigo descrever a sensação em palavras, pois não há.  Aquela batalha havíamos perdido. Meus braços doíam e minhas pernas estavam fraquejando pelo cansaço e pela impotência também.
Voltei ao meu setor e minha companheira ficou responsável por dar a notícia. Ah, como é triste. Ninguém te prepara pra isso, nem a faculdade, nem nenhuma aula, nem mesmo suas experiências. Cada vez, cada dor, cada momento é diferente e difícil.

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Do PS ao meu departamento peguei um lance de escadas e desabei. Não tinha mais forças pra segurar. Chorei muito, mas em silêncio. Enxuguei as lágrimas e chegando pra ver os meus pequenos, que estavam estáveis, encontrei dois deles dormindo, tranquilos, como se nada os abatesse. O pequeno, que estava na UTI, estava estável também.
Fui checar a pequena, cujos pulmões já não estavam mais “encharcados”. Ela estava acordada.
A luz era baixa, entrei, a examinei e ela me olhou nos olhos: “Você tá triste?”. Não tinha forças pra falar, então assenti com a cabeça. “Não fica triste não… vai passar…” Senti uma pontada no peito, ela tinha 8 anos e estava me consolando, quanta força. A mãe dela, que viu como foi toda aquela noite, falou palavras de conforto que também não me esqueço e elas duas me deram força pra seguir naquele interminável plantão.
A chefe chegou e o prontuário estava lá, do mesmo jeito que deixei antes de ir ao PS. “Bom dia” ela disse, e era o suficiente para nos recompormos e irmos ao leito começar a passagem de plantão como chamamos.
A mistura de frustração, tristeza, cansaço e medo da chefe conhecida pela sua fama de extremamente severa me tomavam. Fui passando leito por leito e consegui ver nos olhos dela um pouco de compaixão por tudo o que havia acontecido. Passei todos os pacientes e ela me falou: “ok, pode ir embora”, seu tom um pouco menos pesado do que de costume, e começou a delegar as funções diárias pra os agora muitos residentes que haviam chegado pra passar o dia lá.
Uma tonelada havia saído das minhas costas. Tínhamos mais olhos para vigiar nossas crianças, mas mais do que isso, as crianças estavam bem.

Enfim…

Ainda assim, o pequeno que perdemos ficou na minha cabeça. E o caminho de volta pra casa foi triste e com choro.
Lembro-me desse plantão de tempos em tempos, ele foi difícil, não gostaria de passar por isso de novo. Mas acho que me fez uma médica melhor e, com certeza, foi uma passagem obrigatória pra eu chegar aqui.
A vida na medicina não é fácil, na pediatria, por vezes, menos ainda. Mas tudo me ajudou a ser como sou hoje. E, por isso, sou grata e não trocaria essa profissão por nenhuma outra.
No decorrer dos dias fui acompanhando os 4 pequenos daquela noite. E todos tiveram alta bem e felizes com suas mamães e papais.
Muito feliz por poder compartilhar minha história com vocês.

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