Primeira Crônica de Pediatra

Ah, que emoção! Meu próprio blog! Um canal todo nosso em que trocamos informações úteis e experiências! Tô tão emocionada e contente com esse novo canal aqui, espero que vocês também! Me contem depois, tá?

Pensei em começar aqui contando um pouco sobre ser pediatra, minha história nessa parte linda da minha vida que escolhi!

Aos 11 anos decidi que queria ser médica. Acho que num primeiro momento, ninguém acreditou, afinal era muito pequena. Mas hoje sei que as crianças sabem sim o que querem!

Aos 14 anos, meu pai parou um dia e me perguntou, sério: “E aí, é medicina mesmo?” Eu: “É, pai!” toda emocionada!

Acho que ele engoliu seco, porque sabia o que estava por vir para mim e para ele. rs

Eu não tinha ideia ainda, mas estava certa do que queria.

Mesmo estudando muito e dando o melhor de mim, quando peguei o resultado do vestibular, vi que não tinha passado. Fiquei tão triste.

Sempre me cobrei muito e a decepção foi muito grande de não ver meu nome na lista.

“Pai, e agora?” “Agora você faz cursinho, estuda bastante e presta de novo.”

E foi assim mesmo: período integral, estudando um ano inteiro pra prestar de novo a prova.

No caminho para umas das provas, falei: “Se não passar, vou tentar fazer outra coisa. O que você acha?” (Havia uma série de motivos para isso, além do financeiro, então fiz o que tinha que fazer, mas por dentro o coração estava apertado). Ele: “Você se vê fazendo outra coisa?”

Eu: “Não…” com uma dorzinha no peito.

Ele: “Então está aí sua resposta, você tenta até conseguir.”

E assim seguimos…

Lembro que todo dia de prova tinha um ritual. Minha mãe preparava minha comida preferida e ficava em casa pedindo pra Deus me iluminar. Meu pai me levava pra todas as provas e conversava comigo me distraindo até a hora de entrar.

E, graças a Deus, quando olhei a lista aquele ano meu nome estava lá! Faltou até a voz pra contar pros meus pais.

A emoção foi grande e sensação de satisfação foi indescritível!

Os primeiros 4 anos de faculdade foram teóricos e passaram rápido. Era período integral e eu fazia um estágio à noite e de sábado pra ajudar com alguns custos. Na verdade quase não ajudava, porque ganhava bem pouquinho, mas me sentia melhor sabendo, que dentro dos limites, estava ajudando.

No quinto ano começamos o internato, que é quando vamos pro hospital e começamos a dar plantão. São dois anos assim até a formatura.

Era muita ansiedade de dar meu primeiro plantão, um gostinho do que a vida de médica me reservava. A ansiedade passou após a primeira noite sem pregar os olhos! rs 24 horas trabalhando direto, cansativo sim, mas não vou negar que vi que estava no lugar certo!

Não tenho parente próximo médico, mas sempre que alguém estava doente eu queria acompanhar a pessoa no hospital. Além de cuidar eu me fascinava com o ambiente, pessoas cuidando de pessoas, abdicando de suas vidas pessoais e trabalhando horas e horas em um ambiente cheio de encanto pra mim.

Um companheiro ao meu lado!

Quando comecei o internato conheci o amor da minha vida, que não é médico, mas entendeu as sextas-feiras à noite de plantão, todos os feriados que passou sozinho porque eu trabalhava ou estudava e me buscou no meu último plantão do internato com uma cesta linda de café da manhã com direito a um day spa com massagem e tudo! Ele sempre me apoiou.

Chegou a formatura! Somos médicos! Aquela emoção! Fiz amigos pra levar pra vida!

Mas aí o que seríamos depois disso?

Desde que pensei em fazer medicina tinha decidido ser pediatra. Era das crianças e mães aflitas que eu queria cuidar.

Então mais uma prova difícil no caminho até a Residência Médica (uma especialização da área que quer seguir).

Contei com o apoio de todos novamente e quando vi meu nome na lista da Santa Casa de São Paulo me emocionei novamente, que sensação boa!

Começou a residência e, se achava que já tinha passado momentos difíceis e exaustivos, agora a coisa tinha piorado. O cansaço, exaustão e sensação de não saber nada me dominaram.

Mas aos poucos se cria amizades, elos… Você aprende a lidar com o cansaço e a cada dia aprende um pouco mais sobre a profissão, que tanto te fascina.

Os plantões, em sua maioria, eram com os colegas residentes, então sempre tínhamos alguém pra desabafar, pedir auxílio e te ajudar na correria…

Mas os plantões da enfermaria, esses não, esses eram tranquilos e solitários, já que ficávamos em um residente apenas. Então achei em meus companheiros dois pacientes que ficavam internados por períodos longos na enfermaria. Um menino de 11 anos, São Paulino e uma menina de 12, essa corintiana.

Mais que parceiros

Se você os visse na rua, não saberia que eles estavam doentes. Não só porque os dois eram a simpatia em pessoa, mas porque realmente não aparentavam ter nenhuma doença.

Nessa época programava meu casamento, então, quando as tarefas acabavam, via fotos, organizava as pendências. Quando acabava tudo e o silêncio pairava na enfermaria, lá vinham eles: “Ô tia, que que tá fazendo?” rs Nunca me esqueço…

Eles me viram de noiva antes do meu marido e antes das minhas irmãs, e até opinaram sobre como deveria pentear meu cabelo. Inclusive, enquanto eu escrevia nos prontuários, eles mexiam no meu cabelo. Tarefa mais difícil não dormir nessa hora com esse carinho todo, mas como eu gostava da companhia deles.

Um ano se passou, quando numa manhã descobri, saindo do plantão de 24h que ela havia falecido na UTI na noite anterior. Acho que nunca chorei tanto sozinha. Na rua as pessoas não entendiam o por quê da minha tristeza.

Ser pediatra tem disso, é linda e colorida, mas tem seus momentos sombrios e difíceis. Não me esqueço dela nunca e, por vezes pego o desenho que ela me fez num dos plantões, deixo todos os desenhos que ganho numa pastinha. Realmente sinto falta daquela companheirinha, mas sei que essa estrelinha brilha forte lá no céu…

O menino recebeu alta, saímos juntos, eu do plantão, ele indo pra casa depois de 30 dias de confinamento.

Saímos, o sol brilhava lindo. Ele se ajoelhou na escada da saída e levantou os braços para o céu com um sorriso. Que cena linda.

Mas ele estava lá de novo e dessa vez sem a nossa companheira. Nós nunca falávamos sobre ela.

Altos e baixos

Saí de férias e quando voltei soube que ele tinha ido pra UTI. Conversei com sua mãe e ela, que sempre tivera esperança, estava desolada. “Vamos ter fé”, eu dizia. “Ele é muito forte, sabemos disso.”

Mas um dia chegando no hospital soube que o havíamos perdido. A facada que senti no peito foi extremamente real. Também não me esqueço dele nunca e o “ô tia!” tão característico dele fica ressoando na minha cabeça.

Como eles houveram outros e a vida seguia com sorrisos num dia e choros inconsoláveis no outro. Nessas horas podia contar com o conforto das minhas irmãs, que ouviam histórias tristes e falavam palavras boas na tentativa de consolar.

Vi também bebês que depois de um ano internados tiveram alta, vi milagres acontecendo diariamente e pude aprender com médicos muito competentes.

E, dois anos depois, me formei pediatra!!! Que alegria! Mas, e agora?

Bom, vamos nos subespecializar em gastropediatria! rs Outra prova depois passei! Na gastro fiz amigas irmãs! E, no primeiro mês que estava lá, conheci um garotinho de 2 anos. O garotinho vinha do Nordeste sem diagnóstico. Estava muito mal e só tomava leite de arroz, que foi prescrito pra ele, tão fraquinho!

Ele quase não falava e ficava largadinho no colo da mãe o tempo todo. Sua mãe, que posso chamar hoje de amiga, é uma pessoa doce e via seu filho sofrer, mas tinha a paciência e fé de que alguém conseguiria resolver seu problema, um exemplo.

Acompanhe também os demais posts no meu blog!

Por uma felicidade, eu era a residente responsável pelo caso. Meu chefe fez o diagnóstico e ele começou a melhorar.

Sua mãe vinha pras consultas de muito longe. 1 dia pra chegar de ônibus, mas vinha com um sorriso no rosto, de novo, um exemplo. Dei meu celular caso ele precisasse de algo. Uma das primeiras coisas que ela me mandou foi uma foto: ele com 2 anos comendo pela primeira vez um pedaço de pão. “Ah, mas ele comeu com gosto!”, ela me disse.

E logo a mexerica, a melancia (essa foi uma bagunça só) rs

Acompanhei seu primeiro dia na escola, a festa junina, ganhei até a foto de Dia das Mães! Tudo via WhatsApp, como é bom ter a tecnologia do nosso lado!

Ele ganhou 5 kg em poucos meses e segue tratamento de dua doença, mas muito saudável! Quando terminei a Gastro, dois anos depois, foi difícil me despedir dele. Mas a sua querida mamãe não me deixa sentir saudades e está sempre presente!

Agora sou médica formada, pediatra e gastropediatra, fiz cursos pra consultoria do sono, consultoria de amamentação e sigo estudando e tentando dar meu melhor sempre! A medicina demanda muito da gente, mas dá um carinho de retorno e uma gratidão sem igual!

Espero que tenham gostado de saber um pouquinho mais sobre mim e minha história!

6 Comentários

  • Rhuama
    Que lindo ler isso, me emocionei muito! Pediatria é uma profissão linda! Eu também já sonhei em ser um dia, mas morro de medo de sangue entre outras coisas então não levaria jeito. Mas hoje estou prestes a ganhar minha primeira filha e Só quero o melhor pra ela e sei que isso está nas mãos de vocês pediatras! Parabéns!
    • Dra Bruna Briones
      Obrigada pelo carinho!
  • Thiago Cesar
    Que história linda!!!
    • Dra Bruna Briones
  • Ludiana Cortes Santos
    Uma das poucas vezes que leio uma postagem toda. Linda sua história, precisamos de mais seres humanos como você. Que Deus abençoe você ricamente.
    • Dra Bruna Briones
      Que linda! Obrigada, amém!

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